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terça-feira, 24 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27852: Efemérides (384): Foi há 10 anos que morreu (de verdade) o nosso querido "morto-vivo", o António da Silva Batista (1950-2016), ex-sold at inf da CCAÇ 3490 (Saltinho, 1972), natural da Maia

António da Silva Baptista (1950-2016)

Foto: © João Santiago ( 2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto reproduzida por Beja Santos no seu poste P14454, de 10 de abril de 2015. A fonte provável é o artigo "Desaparecido em combate", de Duarte Dias Fortunato, publicado na revista da GNR, "Pela lei e pela grei", nº de abril de 2000 (*) 

[Na altura, o Fortunato era soldado de infantaria da GNR e prestava serviço no Posto Territorial de Quiaios, na Figueira de Foz; o António da Silva Batista é o último a contar da direita, de bigode, e o Fortunato o terceiro.]


Maia > Moreira > Cemitério local > Foto do Jornal de Notícias, edição de 18 de setembro de 1974, mostrando o soldado António da Silva Batista, a visitar a sua própria campa, depois do regresso do cativeiro. O título da notícia do jornal era: "Morto-vivo depôs flores na sua campa". Na lápide pode ler-se: "À memória de António da Silva Batista. Faleceu em combate na província da Guiné em 17-4-1972".

A foto, de má qualidade, foi feita pelo nosso camarada Álvaro Basto, com o seu telemóvel, na Biblioteca Pública Municipal do Porto, e remetida ao Paulo Santiago. O Álvaro Basto, ex-fur mil enf da CART 3492 (Xitole, 1971/734), mora em Leça do Balio, Matosinhos.

Foto: © Álvaro Basto (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Cópia da 2.ª via da caderneta militar do António da Silva Baptista (1950-2016)... Documento emitido a 4 de Junho de 1987 (!), treze anos depois do seu regresso a casa, vindo do cativeiro...


Maia > 21 de Julho de 2007 > O encontro com o António da Silva Batista (ao centro); à esquerda, o Álvaro Basto, ex-fur mil enf da CART 3492 (Xitole, 1971/74) ; à direita, o Paulo Santiago (ex-alf mil, cmdt do Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72). Foto do João Santiago, filho do Paulo.

Foto: © João Santiago ( 2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Fez ontem  dez anos que morreu, pela segunda (e derradeira) vez, o António da Silva Baptista, o nosso querido "morto-vivo" (1950-2016). Era natural de Crestins, Moreira da Maia. (*)

Recorde-se que o António da Silva Batista, ex-sold at inf da CCAÇ 3490, Saltinho, 1972, foi dado como morto na terrível emboscada do dia 17 de abril de 1972, em Quirafo, junto ao Corubal... Viria a ser libertado pelo PAIGC em 14 de setembro de 1974, em Aldeia Formosa, ele mais 6 camaradas por troca com 35 guerrilheiros do PAIGC (**).

A sua história teve alguma triste notoriedade, até mediática, pelo insólito. A RTP, por ex., no seu programa "Memórias da Revolução", chamou-lhe o "soldado morto-vivo" (alcunha que foi dada pelos jornais do Nporte), e associou-o às efemérides de setembro de 1974 (mès do seu regresso do cativeiro):

(...) O soldado António Silva Baptista, combatente na Guiné-Bissau durante a Guerra Colonial, no seguimento de um ataque do Partido Africano para a Independência da Guiné Bissau (PAIGC) a tropas portuguesas, foi dado morto pelas autoridades portuguesas, tendo a sua família realizado um funeral em sua memória.

 Em boa verdade, António Silva Baptista foi prisioneiro do PAIGC, tendo sido libertado em setembro de 1974. Esta história, devido à sua natureza caricata, alcançou bastante notoriedade em Portugal. (...)

Temos uma meia centena de dezenas referências  ao nosso camarada que nos deixou em 2016.

O nosso pobre camarada morreu, de facto, duas vezes, tendo sido "vítima de um processo kafkiano": 

(i) primeiro, morreu, não fisicamente, mas militar e socialmente; 

(ii) depois, roubaram-lhe a memória, roubaram-lhe os dias e as noites que passou no cativeiro!

(iii) o exército ao fim de vários "ressustcitou-o" e deu-lhe um novo BI...mas levou tempo a pagar-lhe as pensões a que tinha direito!

 
De facto, a vida do António da Silva Baptista é um daqueles relatos que transcendem o individual e se tornam parte da memória coletiva, especialmente num período tão conturbado como o pós-Guerra Colonial e o "verão quente de 1975".

A forma como a sua história foi apropriada pela literatura de cordel, vendida nas feiras e romarias, mostra como o drama humano se transforma em lenda, misturando dor, resiliência e até um certo "humor trágico-marítimo", tão ao nosso gosto... E para mais ao som festivaleiro de um acordeão (*).

É fascinante (e comovente) pensar que, enquanto era dado como morto e até enterrado, numa cova funda do cemitério da sua terra, na Maia, ele estava vivo, incomunicável, prisioneiro do PAIGC, em Conacri e depois no Boé, acabando em setembro de 1974 por regressar para visitar a sua própria campa. Macabro, insólito, miserável!

Essa dualidade entre a morte simbólica e a vida real é um tema poderoso (quase shakespeariano, se quisermos armar ao pingarelho, citando uma referência erudita!) e reflete bem as contradições da guerra e do pós-guerra.

2. Dez anos passaram sobre a morte definitiva (!) de António da Silva Baptista, mas a sua história continua a ecoar como uma das mais singulares, e também mais inquietantes, da guerra na Guiné. 

De facto, não é apenas a história de um homem que sobreviveu ao doloroso cativeiro: é a história de alguém a quem a própria sociedade declarou morto antes do tempo, e a quem o exército "escamoteou" a identidade (e o "patacão" que lhe era devido).

Na emboscada de 17 de abril de 1972, em Quirafo, junto ao Corubal, perdeu-se o rasto de um jovem soldado da CCAÇ 3490. Para o exército, para a burocracia militar, para a comunidade e para a família que aguardava notícias, a conclusão foi rápida: morto em combate. Houve luto, houve funeral (por troca com os restos mortais do António Ferreira!), houve uma campa aberta na sua terra, Moreira, Maia.

Assim terminou oficialmente a vida de António da Silva Baptista, pelo menos no papel.

Mas, enquanto o seu nome era inscrito na lista dos mortos, ele continuava vivo. Prisioneiro do PAIGC, primeiro em Conacri e depois no Boé (e depois novamente para lá fronteira), viveu dois anos e tal de silêncio, dor e invisibilidade. Esse hiato, esses dias e noites apagados da cronologia oficial, são talvez a parte mais dramática da sua história: não apenas o sofrimento do cativeiro, mas o facto de ter sido apagado da vida civil e militar, como se tivesse deixado de existir.

Graças ao nosso blogue (e sobretudo à persistência e às diligências de camaradas nosso como o Álvaro Basto, o Paulo Santiago, outros como a malta da Tabanca de Matosinhos),  foi possível ajudar a recuperar a dignidade e a honra de um camarada nosso que conheceu o inferno na terra (a emboscada do Quirafo, o massacre dos camaradas, os tiros de misericórida na nuca, a morte anunciada, a prisão, o pelotão de fuzilamento, a libertação, o regresso ao outro mundo, a visita à sua própria campa, o pesadelo kafkiano da peluda, a recuperação do BI, a atribuição das pensões, etc....).

Quando regressou, em setembro de 1974, já depois do 25 de Abril, trouxe consigo um paradoxo quase literário, próprio de um "romance do absurdo": o homem que regressou para visitar a própria campa (!). 

Poucas imagens dizem tanto sobre a guerra colonial e sobre o caos do tempo que se seguiu. A realidade, por vezes, escreve histórias que parecem saídas de um romance de Kafka ou de uma peça de  Shakespeare... 

O Batista foi um homem vivo que teve de provar que não estava morto!

Talvez por isso a sua história tenha corrido feiras e romarias, transformada em literatura de cordel e cantada ao som de acordeão. O povo tem esse modo peculiar de lidar com o drama: mistura a tragédia com o espanto, a dor com uma ponta de humor trágico. Assim foi perpetuada  a figura do “morto-vivo” (como os jornais do Norte o chamaram, a que a própria televisão retomaria mais tarde).

Mas por detrás do "faits-divers", da "anedota popular" que deu dinheiro a ganhar a feirantes,  havia um homem real, um camarada que carregou o peso de uma vida interrompida duas vezes: primeiro quando o deram como morto; depois quando, regressado, teve de reconstruir a sua identidade e a sua memória.

Recordá-lo hoje é mais do que recordar um episódio insólito. É lembrar um dos muitos destinos improváveis que a guerra produziu: vidas suspensas, histórias mal contadas, homens que ficaram presos entre a história oficial e a memória vivida (e sofrida).

E talvez seja por isso que a história de António da Silva Baptista continua a tocar-nos e é hoje tema desta efeméride (***): porque nos lembra que, às vezes, a guerra não mata apenas os corpos, também pode matar, ou tentar matar, a própria existência de um homem, naquilo que ele tem de mais precioso: a "alma", a identidade, a memória...

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 23 de março de 201 > Guiné 63/74 - P15894: In Memoriam (247): António da Silva Batista (1950-2016)... A segunda morte (esta definitiva!) de um camarada a quem carinhosamente chamávamos o "morto-vivo do Quirafo". O funeral é amanhã, às 15h45, na igreja de Santa Cruz do Bispo, Matosinhos

(**) Vd. postes de:

29 de março de 2016 > Guiné 63/74 - P15911: (Ex)citações (306): A propósito da última troca de prisioneiros, em Aldeia Formosa, no dia 14 de setembro de 1974....Prisioneiros, não, "retidos pelo IN"...

11 de dezembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9181: Troca dos últimos prisioneiros: 35 guerrilheiros do PAIGC e 7 militares portugueses (III Parte) (Luís Gonçalves Vaz)

22 de julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1983: Prisioneiro do PAIGC: António da Silva Batista, ex-Sold At Inf, CCAÇ 3490 / BCAÇ 3872 (1) (Álvaro Basto / João e Paulo Santiago)



(***) Último poste da série > 14 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27734: Efemérides (383): O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o Dia dos Namorados”, é o ‘Dia da Amizade” (João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27767: Fauna e flora (26): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - Parte I

Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região do Oio > Farim > 7 de junho de 2022 > Crocodilo-do-Nilo (Lagarto, em crioulo) (Crocodylus nilotcus)... Está protegido por lei... Pode atingir os 7 metros de comprimento... e atacar o homem.

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2022). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 2 > Guiné- Bissau > Região de Biombo >  s/l  > s/d  (c-. 2009) > O crocodilo da Praia do Biombo 

Foto (e legenda):  © Patrício Ribeiro (2009). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 3 > Guiné-Bissau > Região do Cacheu > São Domingos > Novembro de 2015 > Captura de dois crocodilos "assassinos" no rio Cacheu... Um deles foi exposto numa árvore, juntando uma multidão de curiosos...

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2015). Todos os direitos reservados. .[Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Foto nº 4 > Guiné > Zona leste >  Região de Bafatá > Sector L1 > Bambadinca > Mato Cão > O ten cor Polidoro Monteiro, último comandante do BART 2917 (1970/72), o alf mil médico Vilar (popularmente conhecido como o "Drácula", mais tarde psiquiatra) e o alf mil Paulo Santiago, cmdt do Pel Caç Nat 53 (Saltinho, 1970/72) e depois instrutor de milícias (no CIM de Bambadinca) com um crocodilo juvenil do rio Geba Estreito...
 
Foto tirada em novembro ou dezembro de 1971 no Mato Cão, após ocupação da zona com vista à construção de um destacamento, encarregue de proteger a navegação no Geba Estreito e impedir as infiltrações na guerrilha no reordenamento de Nhabijões, um enorme conjunto de tabancas de população balanta e mandinga tradicionalmente "sob duplo controlo".

O Polidoro Monteiro, já falecido, gostava de caçar. Incluindo à noite, utilizando os faróis do jipe, na orla da pista de Bambadinca. Lembro-me dele como tendo sido o único oficial superior que andou connosco (CCAÇ 12), a penantes no mato (pelo menos, uma vez, quando se foi inteirar dos seus domínios, o sector L1; veio de Bissorã e era considerado um spinolista, mesmo sendo de infantaria).

Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Na Guiné, no meu tempo (1969/71), a malta não tomava banho à vontade nos rios, por muitas razões, a começar pelas de saúde e segurança... E, claro, o medo de répteis em geral e crocodilos, em particular... Herpetofobia, é o palavrão...

Sabemos que não havia "jacarés" em África (só no Novo Mundo), mas os crocodilos estavam no nosso imaginário quando lá chegávamos... Para o "tuga", crocodilo ou jacaré era tudo o mesmo... 

Parece que o Crocodylus niloticus sofreu uma redução drástica, na África Ocidental, desde há dois séculos, com o colonialismo e a pressão humana (caça, procura da pele, redução do habitat, poluição, etc.). E terá desaparecido de muitos rios da África Subsaariana.

Mas será que ainda havia crocodilos em todos os rios da Guiné, no nosso tempo? Os restos mortais dos nossos infortunados camaradas que caíram ao rio Corubal, em Cheche, terão sido também devorados por crocodilos? Há relatos, no blogue, de cadáveres que foram recuperados (no Geba e no Corubal), parcialmente mutilados...

Em anos mais recentes, o rio Cacheu tem sido notícia por más razões, as do eterno conflito entre a vida selvagem e as comnunidades humanas ribeirinhas... 

No rio Cacheu um habitat de crocodilos de grande porte, tem sido reportados e documentados ataques esporádicos daqueles réptéis, quer pelos habitantes da região quer pela imprensa de Bissau. E pelo nosso Patrício Ribeiro, o "tuga" que melhor conhece a Guiné (vd. fotos nºs 1, 2, e 3).

Por outro lado, os rios da Guiné, de águas barrentas e margens indefinidas (no tempo das chuvas), metiam respeitinho, sobretudo quando a malta fazia uma "cambança" de canoa... Cair-se ao rio era quase morte certa...

Enfim, vamos ver o que as diferentes ferramenta de IA nos dizem a respeito destes bichos feios e predadores, mas raramente visíveis por nós (ambos, "criaturas de Deus", diria o São Francisco, que nunca deve ter visto a mandíbula de um crocodilo-do-Nilo). 

Tal como os hipopótamos, que os havia no rio Corubal, no meu tempo (1969/71)... Mas esses faziam-se notar à distância, pelos seus urros... 

Comecemos por este "juvenil" de crocodilo da foto nº 4, freguês do Mato Cão, onde fomos muitas vezes (e onde, depois em finais de 1971/princípios de 1972, será montado um destacamento, por onde passaram alguns dos nossos grão-tabanqueiros). 

Confesso que nunca lá vi nenhum crocodilo, no Mato Cão. Nem tinha nem vagar para os observar. Mas o crocodilo era como o "Zé Turra", hábil no engenho e na arte de se camuflar e furtar ao contacto do "Zé Tuga", mesmo que estes dois pertencessem à mesma Ordem, a dos Primatas, e à mesma Espécie, a do Homo Sapiens Sapiens. A espécie que está no topo dos grandes predadores.


Pergunta à IA:  Crocodylus niloticus ou Osteolaemus tetraspis ? Juvenil, apanhado em 1971 no rio Geba Estreito, no Mato Cão (sujeito às marés, logo, água salgada) (foto nº 4)


Responde  a "menina IA"  ( europeia,  Le Chat / Mistral):

A espécie de crocodilo na imagem, apanhada em 1971 no rio Geba Estreito (Mato Cão, Guiné-Bissau), e que o nosso Paulo  Santiago segura, pela mandíbula superior, é quase certamente um Crocodylus niloticus, o crocodilo-do-Nilo.

Razões:
  • Distribuição geográfica: o Crocodylus niloticus é comum em toda a África subsaariana, incluindo a Guiné-Bissau, enquanto o Osteolaemus tetraspis (crocodilo-anão) tem uma distribuição mais restrita, principalmente em florestas tropicais da África Ocidental e Central, mas é raro ou ausente em habitats como o rio Geba, que é influenciado por marés.
  • Tamanho e morfologia: mesmo sendo um juvenil, o corpo alongado e a forma da cabeça são mais consistentes com o Crocodylus niloticus; o Osteolaemus tetraspis tem um focinho mais curto e largo, e é geralmente menor, mesmo em idade adulta.
  • Habitat: o Crocodylus niloticus é adaptado a rios, lagos e estuários, enquanto o Osteolaemus tetraspis prefere águas mais calmas e florestais.
  • Contexto histórico: durante a Guerra Colonial Portuguesa (1961-74), era comum os soldados entrarem em contacto com a fauna local, incluindo crocodilos, especialmente em zonas ribeirinhas como o Geba ou o Cacheu.

2. Distinção entre "lagarto" e "lagarto preto"

Ficha técncia: Crocodilo-do-Nilo ("Lagarto", em crioulo) (Crocodylus nilotcus) (pág. 28)

"Lagarto preto", em crioulo  (Osteolaemus tetraspis) (pág. 28), Também conhecido na África Equatorial como crocodilo-anão.

Fonte: República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Departamento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d (Disponível em formato pdf, aqui, no sítio do IBAP , https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf)


3. Comentou o Paulo Santiago, em complement0o da legenda da foto nº 4:

"Quem avistou o réptil, a caminho do Mato Cão, foi o soldado que conduzia o Sintex. Parou e o Vilar deu-lhe um tiro com a .22 que tinha aquela "enorme" baioneta acoplada. 

"Notou-se o animal acusar o tiro. O "barqueiro" aproxima o bote, o crocodilo tem ferimento num dos membros, abre a boca e o Vilar enfia-lhe a baioneta na goela. O bicho fecha a boca, abana a cabeça, e o futuro psiquiatra quase mergulha...

"Valeu-lhe o ten-cor Polidoro Monteiro que enfiou uma bala 7,62 na cabeça. Chegados ao destacamento, o Vilar pediu a um balanta para esfolar o bicho. Fizeram uns 'bifes' da cauda, dos quais não comi nenhum.

"Eu e o Vilar regressámos a Bambadinca com a subida da maré. O comandante Polidoro ficou no destacamento e, como acontecia várias vezes, houve flagelação ao anoitecer".

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026 às 19:36:27 WET

(Continua)
 ___________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27709: Fauna e flora (25): Uma píton-africana ou irã-cego (Python sebae), "papada com esparguete" pelos "abutres de Cabuca (2ª CART / BART 6523 /73, 1973/74)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27753: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (19): uma ida traumática a Bissau, a morte horrorosa do fur mil Asdrubal Fernandes, vítima de acidente com uma granada de RPG-2; era natural de Esposende


Granada de RPG-2, no museu de Kiev, Ucrânia  (Fonte: Wikipedia)


Ficha do fur mil arm pes inf Asdrubal Fernandes, vítima de um horroso acidente com uma granada de RPG-2. Faleceu em 5/7/1972, no HM 241, em Bissau. Era natural de Esposende, conterrâneo do Mário Miguéis.

Fonte: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 8.º Volume; Mortos em Campanha; Tomo II; Guiné; Livro 2; 1.ª Edição; Lisboa (2001), pág. 127 (Com a devida vénia...).


1.
 Mensagem  do Paulo Santiago  (ex-alf mil, cmdt Pel Caç Nat 53, Saltinho 1970/72), residente em Aguada de Cima, Águeda, autor da série "
Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos" (*):


Data - 20 de fevereiro de 2027, 01:07
Assunto - Uma ida traumática a Bissau


Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santigo) (19): uma ida traumática a Bissau, a morte horrorosa  do fur mil Asdrubal Fernandes, vítima  de acidente com uma granada  de RPG-2


Paulo Santiago: um histórico
da Tabanca Grande; tem 205
 referências no blogue
Uma manhã em meados de jun de 1972, um soldado  foi chamar-me ao reordenamento de Contabane, hoje chamado de Sinchã Sambel, para vir ao quartel falar com o capitão [mil inf, Dário Lourenço, cmdt, CCAÇ 3490 (Saltinho, 1972/74), do BCAÇ 3872 (Galomaro, 1972/74), conhecida pela alcunha do capitão-proveta, ou "Proveta"]

Desde Maio que me transferira (voluntariamente) para o reordenamento... Sentia-me melhor afastado do Lourenço. Comigo estava o fur mil Mário Rui e uma secção.

No quartel, a quinhentos metros do 
reordenamento, fui ter com o capitão.

−  Santiago, tem de ir a Cansonco levar o chefe de tabanca. Leva um dos pelotões da companhia . (O meu, o  Pel Caç Nat 53, estava dividido, metade estava em Galomaro.)

Em março, poucos dias após regressar de Bambadinca (**),  o Lourenço pede-me insistentemente para ir com ele numa operação ao Celo-Celo para armadilhar um trilho, ordem do comandante do Batalhão. 

Acabei por aceder e fui com cinco Soldados do 53. Correu mal, uma operação que demoraria dois dias, acabou ao fim de uma manhã. Por teimosia e basófia do Lourenço, apanharam com um ataque de abelhas, e teve de vir um heli para evacuar militares em mau estado.

Contei este episódio há anos aqui no Blogue (***).

Com este antecedente disse que não ía a Cansonco com militares que conhecia mal.

− Não vai, vou participar!

Quase a terminar a comissão, o Proveta estava preparado para me tramar.

Falei com o médico, estava na CArt do Xitole, para me mandar a uma consulta de Psiquiatria a Bissau. Sem problemas, arranjou-me a consulta.

Ainda no tempo da CCaç 2701, do cap Clemente, o Marcelino da Mata esteve no Saltinho a treinar oito soldados do meu pelotão (Pel Caç Nat 53) que ficavam à ordem dele (Gr Op Especiais). Conheci o Marcelino na altura.

Soubera, após a trágica emboscada do Quirafo [em 17 de abril de 1972]

e também da morte de um agente, de umas "bocas" ditas pelo Lourenço. Tinha de falar com o cap pqdt António Ramos.

Munido da consulta de psiquiatria, apanhei a avioneta da sexta-feira no Xitole para Bissau.

Em 3 de julho de 1972 almocei com o Marcelino, falei-lhe no que constava sobre a morte do agente e que gostaria de falar com o cap Ramos. Concordou. Após o almoço seguimos para a Amura.

A seguir ao portão de entrada estava um grupo de militares da PM a lavar um jipe todo ensanguentado. Disseram ao Marcelino que o fur mil  Asdrubal estava a instruir um soldado sobre o funcionamento de um RPG 2, a arma disparara, atingindo o Asdrubal.

Já não fui falar com o cap Ramos. Fui com o Marcelino para o Hospital. Mal transposta a entrada, uma cena lastimável, horrível... deitado numa maca, via-se de um dos lados do tronco a cabeça cónica da granada, e  do outro lado uma parte das empenagens. Nalgumas janelas tiravam fotografias.

 −  Marcelino, tira-me isto.

As dores deviam ser um horror mas o Asdrubal estava conciente, falava.

O director do Hospital não autorizava a entrada da maca com receio de
um explosão da granada. O Marcelino disse-lhe que, se a granada não
rebentara com o embate no tronco, já não explodia, nem devia ter a
espoleta.

Não demoveu o médico, resolveu ir à Amura buscar um granada.

Fiquei ali junto da maca sem saber o que dizer.

Entretanto chega um heli com um ferido. Aproximei-me... Devo ter ficado branco, pálido, sem fala... na maca vinha o meu soldado balanta Putchane Obna, de alcunha "Bagaço". Vinha consciente, apanhara um tiro no braço esquerdo. 

O Proveta mandara sair os oito sobre os quais não tinha qualquer autoridade... o gajo não tinha emenda.

Chegou o Marcelino com uma granada de RPG 2. Frente ao director do Hospital desaperta a cabeça, tira a espoleta, aperta a cabeça, bate-a contra o chão, e assim lá conseguiu autorização para a entrada da maca com o furriel Asdrubal.

No dia seguinte fui então falar com o cap pqdt António Ramos, a quem o Marcelino já contara as tristes cenas do Lourenço. Este recebeu passadas poucas horas uma mensagem demolidora escrita à minha frente.

O Asdrubal, clinicamente, estava morto mas continuava a falar, morreu no dia cinco [de julho de 1972].

Não houve participação, não fui à consulta.

Por vezes, lembro-me da emboscada, a pequena distância do quartel, onde o "Bagaço" foi ferido.

Como foi possível a guerrilha estar ali? Alguém falou?

Paulo Santiago

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, links, título: LG)
_______________

Notas do editor LG:

(*) Último  poste da série > 21 de novembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3495: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (18): Vem nos manuais de sobrevivência, está lá tudo..

(**) Vd. poste de 9 de Setembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3189: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (17): Instrutor de milícias em Bambadinca (Out 1971).

(***) Vd. poste de 25 de julho de 2006 > Guiné 63/74 - P986: A tragédia do Quirafo (Parte II): a ida premonitória à foz do Rio Cantoro (Paulo Santiago)

Vd. também poste de 23 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P980: A tragédia do Quirafo (Parte I): o capitão-proveta Lourenço (Paulo Santiago)

domingo, 28 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27580: Casos: a verdade sobre... (62): Al-Hajj Cherno Rachide Jaló (1906-1973)... O itinerário das colunas que levaram, de Bambadinca a Aldeia Formosa / Quebo, os fiéis que foram à cerimónia fúnebre do imã (Paulo Santiago)


Guiné > Carta Geral da Província (1961) (Escal 1/500 mil) > Percurso (a amarelo) que seguiram os fiéis do Cherno Rachide que foram ao seu funeral em setembro de 1973:  Bambadinca - Xitole - Cambessê - Uria Candi - Cambança do Rio Corubal - Aldeia Formosa / Quebo. A vermelho, o troço  de estrada que estava interdito: Saltinho - Rio Mabiá - Contabane - Aldeia Formosa / Quebo. 

As distâncias quilométricas são mais ou menos as seguintes (hoje em dia): Bambadinca-Xitole: 30  km; Xitole-Saltinho, 20 km; Saltinho-Quebo: 20 km. No nosso tempo, e na época das chuvas, com risco de minas e emboscadas, uma coluna Bambadinca-Xitole-Saltinho podia levar um dia ou até mais... O troço Mansambo - Xitole-Saltinho esteve interdito cerca de um ano (set 1968/ set 69).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1. Comentário do Paulo Santiago  (ex-alf mil, cmdt Pel Caç Nat 53, Saltinho 1970/72) (*):

O  poste do Luís fala numa coluna militar para levar os fiéis do Cherno Rachid, de Bambadinca a Aldeia Formosa (Quebo). 

Direi que seriam duas colunas. Assim,as viaturas saídas de Bambadinca seguiam em direcção ao Xitole,e aqui seguiam em direcção ao Saltinho.

Passada a tabanca de Cambessê,  a última do Xitole, poucos quilómetros  andados aparecia a tabanca de Uria Candi onde se cortava à direita por uma picada até atingir o rio Corubal, onde de canoa se cambava  para a outra margem onde estariam viaturas de Aldeia Formosa.

Uma vez, em  que fui a Aldeia Formosa, saí do Saltinho indo até à cambança e na outra margem tinha o pessoal de Aldeia.

O trajeto Saltinho-Rio Mabiá-Contabane estava minado pelas NT e pelo IN.








Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Bambadinca > BCAÇ 2852 (1968/70) e CCAÇ 12 (1969/71) > Visita que o Cherno Rachide fez a Bambadinca, no início de janeiro de 1970...  As fotos devem ser de 10 de janeiro.

Fotos do álbum do ex-fur mil at inf Arlindo Roda, da CCAÇ 12 . Sem legenda. (Infelizmente as fotos do meu camarada Arlindo Roda não trazem legendas, local, data, etc.)... 

A personagem  de azul escuro  e "gorro" preto, assinalada a amarelo, tudo indica que seja o Cherno Rachide, a presidir a um encontro com os seus fiéis do regulado de Badora e outras paragens, que se deslocaram a Bambadinca para o cumprimentar, rezar com ele,  ouvir os seus conselhos, etc.. 

 Um seu "adjunto", vestido de branco e também com um gorro preto, segurando um lenço,  recolhe oferendas ao imã (moedas, "pretas" e "brancas", poucas notas, nozes de cola). O Cherno Rachide na altura teria 63 anos. Morreria  3 anos depois.

Recordo-me de as NT lhe terem armado uma tenda, no recinto do quartel de Bambadinca, para ele receber condignamente não só as autoridades locais, civis e militares, como também os seus fiéis...  O chão era coberto por tapetes. O gen Spinola deve ter mandado assegurar o seu transporte e acomodação. A ele e ao seu séquito.

Ele virá a falecer, em Aldeia Formosa, onde residia, em setembro de 1973, em dia que não podemos precisar.  

Na altura, o comandante do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) terá  organizado uma coluna de transporte  para os muçulmanos do sector L1  poderem ir prestar-lhe ( ao imã)  a última homenagem em Aldeia Formosa / Quebo.

No meu tempo ( 1969/71) o troço Saltinho- Contabane - Aldeia Formosa estava interdito, logo a partir da Ponte do Saltinho, sobre o rio Corubal... O transporte até Aldeia Formosa teria que ter segurança militar e seguir outro trajeto, como sugere  o Paulo Santiago, que conheceu bem o terreno  (esteve lá em 1970/72 e voltou lá em 2005 e 2008).

Foto: © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. De acordo com a História do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74), há uns tantos pontos a destacar no mês de setembro de 1973:

(i) choveu intensamente, e as populações, nomeadamente, os balantas, ocupam-se dos trabalhos agrícolas (cultivo das bolanhas);

(ii) começou para os muçulmanos o Ramadão (de 27 de setembro a 26 de outubro de 1973); 

(iii) o comando do BART 3873 propõe, à Rep ACAP, que dois dos  mais prestigiados ( e "fiéis") régulos do sector L1, o do Xime e o de Badora, sejam escolhidos para a viagem de peregrinação aos lugares santos do Islão, a expensas do governo da província (o critério era sempre o apoio à "causa nacional");

(iii) o PAIGC escolheu, estranhamente (?), a data de 24 de setembro de 1973 (em plena época das chuvas e a 3 dias do início do Ramadão), para proclamar unilateralmente a independência da Guiné-Bissau (em local que ainda hoje é objeto de grande controvérsia, mas que a sua descarada propaganda teimou em dizer durante décadas que tinha sido... em Madina do Boé!) 

(iv) estranhamente, não: a 28ª sessão ordinária da Assembleia Geral da ONU acabava de se iniciar em 18 de setembro de 1973, e logo nesse dia as "duas Alemanhas", a República Federal da Alemanha (Ocidental) e a República Democrática Alemã (Oriental) foram admitidas simultaneamente como Estados-membros da ONU;

(v) morreu o Cherno Rachide (ou Rachid) de Aldeia Formosa / Quebo e o comando do BART 3873 prontificou-se a organizar uma coluna de transporte para os "muitos fiéis muçulmanos" (sic)  do setor L1 (Bambadinca) que quisessem assistir às cerimónias fúnebres; nesta altura, estava em Aldeia Formosa o BCAÇ 4513 (1973/74)-

As NT sempre deram grande importância à "lealdade" dos fulas e da sua elite dirigente, a quem o Amílcar Cabral chamava, com profundo desprezo, os "cães dos colonialistas".  Nunca saberemos ao certo qual o papel que o Al-Hajj Cherno Rachide  Jaló (1906-1973) desempenhou  na "nossa guerra" (***). 

Há quem, como o José Teixeira,  defenda a opinião de que os ataques e flagelações a Aldeia Formosa eram dirigidos para o aeródromo e  o quartel das NT, e nunca para a tabanca (onde residia o imã). E que, por outro lado, um seu sobrinho seria "cabo de guerra" na região, pelo lado do PAIGC (comandante de bigrupo, ou coisa parecida). 

Em conversa há dias com nosso camarada Arménio Santos (ex-fur mil, Rec Inf, Aldeia Formosa, 1968/70), que "trabalhou"  com o Cherno Rachide, no campo da informação e acção psicológica (e que, portanto, o conheceu bem), percebi que este dossiê ainda está longe de estar encerrado de todo. 

Oxalá apareçam mais histórias e testemunhos sobre o Cherno Rachide, cujo sucessor, o seu filho,  Al-Hajj Amadú Dila Djaló, será depois deputado pelo PAIGC, a seguir à independência, na Assembleia Nacional Popular. Contradições ? Realismo político ? O(s) poder(es) tem (têm) horror ao vazio. Sempre. Em toda a parte.


3. Excertos da H. U. (História da Unidade) | BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) - Cap. II: 17º fascículo: setembro de 1973 , pp. 67/68/69 (***)







4. Excertos da história do BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, 1973/74) (Transcrição, para suporte digital: Fernando Costa) (****)

CAPÍTULO II > ACTIVIDADE NO TO DA GUINÉ > 4º Fascículo (período de 1Set a 30Set73)

(...) Verificou-se no período o falecimento do Cherno Rachid, chefe religioso de extraordinário prestígio no meio muçulmano, cuja perda abalou muita a população, receando-se não ser fácil encontrar quem o substitua com o mesmo prestígio e a mesma devoção à Causa Nacional (sic) (***).

No dia 29Set73 regista-se a chegada à Província do novo Governador e Comandante-chefe, General Bettencourt Rodrigues, que substituiu nos cargos o General António Spínola. (...)

5º Fascículo (período de 1Out a 31Out73)

(...) Durante o período continuaram a deslocar-se a Aldeia Formosa, em virtude do falecimento do Cherno Rachid, várias autoridades tradicionais, algumas estrangeiras, entra as quais se destaca o Cherno Aliu Cham, do Senegal.

Sekuna, filho do Cherno Racxhid, foi eleito, em assembleia dos "Homens Grandes", sucessor de Cherno Rachid.

Por motivo do acto eleitoral no dia 28 (*****),  e a festa do Ramadão nos dias 28 e 29, efectuaram-se diversas colunas a Buba, Nhala, Rio Corubal, para transporte da população. (...)

04Out73

(...) O Cmdt recebe a visita de todos os "Homens Grandes" da região que vêm comunicar que, reunidos em assembleia, elegeram Sekuna, filho do Cherno Rachid, como seu sucessor. 

Exprimem todo o seu apoio e lealdade à Causa Nacional. Este mesmo facto é comunicado à Rep ACAP, para ser transmitido a Sua Excelência Comandante-Chefe. (...)

09Out73

(...) Esteve presente no Comando do Batalhão, a apresentar os seus cumprimentos de despedida, o Cherno Aliu Cham, da Rep Senegal., e que agradeceu todo o apoio prestado quando do falecimento do Cherno Rachid e todo o apoio sanitário que continua a ser dado em todos os postos fronteiriços da Rep Senegal.(...)


28Out73

(...) Processou-se o acto eleitoral  (*****) e iniciaram-se as festas do Ramadão, que trouxeram a Aldeia Formosa muita população de Buba, Nhala e Saltinho. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, LG)
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Notas  do editor LG:

(*) Vd. poste de 23 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27564: (In)citações (283): Em louvor dos Postos Escolares Militares e do Cherno Rachide (Cherno Baldé, Bissau)

(***) Vd. poste de 23 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27565: Casos: a verdade... (61): Aldeia Formosa / Quebo é atacada ou flagelada pelo menos 7 veses em 1969 e 1971, em pleno consuklado Spinolista: em 7/3/69, 8/3/69, 21/3/69, 9/7/71, 11/7/71, 31/7/71, 12/8/71... E continuou a ser atacada ou flagelada em 1972... Faz sentido continuar a considerar o Cherno Rachid como um "agente duplo" ?

(****) Vd. poste de 27 de janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5716: Morte e sucessão do Cherno Rachide, ao tempo do BCAÇ 4513, em Set / Out 1973 (Fernando Costa)

(*****) Recorde-se que em  28 de outubro de 1973 realizou-se, em Portugal, as últimas eleições legislativas sob a égide do Estado Novo. 

Acção Nacional Popular (ANP), partido único do regime "recauchutado" (sucessor da União Naci0nal), elegeu todos os deputados para a Assembleia Nacional (150), num escasso 1,4 milhóes de votos, enquanto a Oposição Democrática boicotou o processo, denunciando a falta de liberdade e condições para eleições sérias e justas, num contexto de crescente contestação política e social do regime.  Seis meses depois aconteceu o 25 de Abril de 1974. O Estado Novo caiu de podre, sem honra nem glória. A Assembleia Nacional foi imediatamente dissolvida.

Pelo "círculo eleitoral da província ultramarina da Guiné", e para a" XI Legislatura da Assembleia Nacional! foi eleitos dois deputados Leopoldino de Almeida e Benjamim Pinto Bull, com menos de 12,2 mil votos.

Por sua vez, o Ramadão de 1973 (ano 1393,  no calendário islâmico) começaria a 27 de setembro  (quinta-feira) e terminaria  a 26 de outubro de 1973 (sexta-feira). 

O Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadã, foi celebrado a 27 de outubro de 1973. (A Guerra do Yom Kippur, também conhecida como a Guerra do Ramadão, começou a 6 de outubro de 1973, coincidindo com o 10º dia do Ramadão.)

O Eid al-Fitr marca o fim do jejum do mês sagrado do Ramadão.  É uma celebração de gratidão a Deus pela força para completar o jejum.  Centra-se muito na caridade (Zakat al-Fitr), no uso de roupas novas e em orações comunitárias logo pela manhã.

Náo confundir com o Eid al-Adha (Tabaski ou a "festa do carneiro", na Guiné-Bissau). Celebra a devoção de Abraão (Ibrahim) e o sacrifício de um cordeiro em lugar do seu filho. Quase todas as famílias que têm condições,  sacrificam um animal (geralmente um carneiro) e dividem a carne em três partes: uma para a família, outra para amigos e vizinhos, e outra para os pobres. Ocorre cerca de dois meses e meio após o fim do Ramadão.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27299: In Memoriam (559): Suleimane Baldé (1938-2025), régulo de Contabane, ex-1º cabo do Pel Caç Nat 53 (1968-1974), filho do régulo Sambel Baldé e de Fatumatá; fica inumado, simbolicamente, à sombra do nosso poilão, no lugar nº 908


Guiné-Bissau >  Região de Bafatá > Saltinho > Sinchã Sambel > 2015 : O Zé Teixeira e o Suleimane Baldé (1938-2015), régulo de Contabane...É a foto mais recente que temos dele. Os dois conheceram-se em Mampatá, em 1968

Foto (e legenda): © José Teixeira (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné-Bissau > Região de Tombali > Sinchã Sambel (antiga Contabane) > 3 março de 2008 > O Suleimane Baldé, régulo de Contabane, à direita o Pedro Lauret, e à esquerda o Paulo Santiago, seu antigo comandante, quando ele era, em 1970/72, 1º cabo do Pel Caç Nat 53. Foto tirada por ocasião do Simpósio Internacional de Guileje (Bissau, 1-7 de março de 2008)

Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Matosinhos > Tabanca de Matosinhos > s/d > O Suleimane Baldé, ao centro, à sua direita, o Paulo Santiago, à direita o Mário Miguéis da Silva (que conheceu o Suleimane no Saltinho, em 1970) e de perfil o Zé Teixeira.

Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Mensagem de Paulo Santiago (ex-alf mil, cmdt, Pel Caç
Nat 53, Saltinho, 1970/72)

Paulo Santiago


Data - 8 out 2025 11:38

Assunto - In memoriam: Suleimane Baldé

Soube há pouco, por telefonema do Zé Teixeira, da morte súbita, ontem, do Suleimane Baldé, antigo 1º cabo do Pel Caç Nat 53 que comandei entre out/70 e ago/72.

O Suleimane, filho do Sambel Baldé e da Fatumatá (morreu aos 100, em 2010),  herdou do pai o regulado de Contabane. 

Em outubro de 1970 eu era um puto ao lado do Suleimane, dez anos era a diferença entre os meus 22 e os dele 32. Fomos bons camaradas.

Ficou algumas vezes em minha casa, quando de vindas a Portugal. 

A foto em anexo  foi tirada numa dessas vezes. Aconteceu na Tabanca de Matosinhos, na imagem Mário Miguéis, que conheceu o Suleimane no Saltinho, e de perfil o Zé Teixeira.

Descansa em paz, camarada Suleimane.

PS - O Suleimane Baldé foi, de facto, também  milícia, antes de ingressar no Pel Caç Nat  53. Esclareça-se, por outro lado, que os moradores de Contabane não  foram dispersos por Aldeia Formosa e Mampatá, A grande maioria,foi "instalada" junto da picada que seguia para o Xitole a cerca de 1 km do quartel do Saltinho, Foram estes antigos moradores da destruída Contabane que ajudaram militares da CCaç 2701 na construção da actual Sinchã Sambel, onde vivi os meus últimos meses de comissão.

Já no século XXI, eu e o antigo cap Carlos Clemente, hoje coronel na situação de reforma, fomos ouvidos, várias vezes, acerca de um ferimento sofrido,  junto a um ouvido, pelo 1º cabo Suleimane Baldé e que lhe provocava  perda de audição. Foi uma situação complicada. Uma operação irregular, sem relatórios escritos, com o grupo do Marcelino da Mata. Mais por declarações do Clemente,do que minhas, foi atribuída uma pensão ao Suleimane.
 

Zé Teixeira

2. Mensagem  do José Teixeira (ex- 1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70):

SULEIMANE BALDÉ, UM AMIGO QUE PARTIU PARA O ETERNO AQUARTELAMENTO. (*)

Tive o prazer de conviver com o Sulimane (como eu o tratava), na segunda metade do ano de 1968 em Mampatá Forreá, onde ele estava colocado na Milícia local. 

Suponho que já estava casado com a Naná, filha do régulo, o alferes de segunda linha Aliu Baldé, de quem guardo as melhores recordações, bem como dos seus filhos e de toda a gente com quem convivi. 

Nessa altura, não sabia que ele era filho do régulo Sambel de Contabane, a viver em Aldeia Formosa (Quebo)  depois da tabanca onde vivia (Contabane) ter sido atacada e  queimada, no dia 22 de junho desse ano.(**)

Quando em 2005 voltei à Guiné, encontrei-o na tabanca de Sinchã Sambel, no Saltinho – tabanca, onde o seu pai se fixou e com ele a sede do regulado de Contabane, agora nas mãos do Sulimane. 

Foi a esposa, a Naná,  que me reconheceu e me fez recordar, os tempos passados em Mampatá, trinta e cinco anos antes, uma surpresa profundamente agradável para quem regressava à Guiné, agora como voluntário para reviver os tempos, os bons e os menos bons, de outrora.

Foi um prazer grato voltar e encontrar o casal e solidificar a amizade que nos unia desde a minha estadia em Mampatá.

Voltei à Guiné várias vezes, com paragem obrigatória por Sinchã Sambel para conviver com o Sulimane e família. 

Levei a sua casa os meus filhos e a minha esposa, os camaradas e amigos que me acompanhavam nas visitas à Guiné. Fui sempre recebido como um filho, pelo Sulimane e pela Naná, também falecida há alguns meses atrás.

O Paulo Salgado, seu conhecido e amigo de outras andanças pela Guiné, quando o Sulimane era seu 1º cabo no Pel Caç Nat 53,  no Saltinho, trouxe-o à tabanca de Matosinhos. Tive a oportunidade de várias vezes o ir visitar a Lisboa, quando ele vinha cá, sobretudo por causa das doenças que o apoquentavam, o mesmo acontecia quando a Naná estava em Lisboa.

Escrever sobre o Sulimane é falar de um homem íntegro, um grande líder étnico, um guineense que também era um português de alma e coração. Um homem simples, cordato, conversador e firme nos seus ideais. Um gigante, que muito me ensinou nos diversos encontros que tivemos.

Faleceu no  passado dia 7, com oitenta e sete anos.

Com a sua morte, fiquei mais pobre.
Fica em paz, querido amigo.

Junto fotos nos nossos encontros.

Zé Teixeira

(Fonte: página do facebook do José Teixeira, 8 de outubro de 2025, 23:22)


3. Comentário do editor LG:

O Suleimane Baldé era 1º cabo do Pel Caç Nat 53, ao tempo do Paulo Santiago, seu comandandente no época de 1970/72. Era DFA (com 30% de incapacidade, por estilhaço num ouvido, resultante de uma nina A/P. Fez operações "irregulares" para lá da fronteira com o grupo do Marcelino da Mata. Herdou de seu pai o regulado de Contabe. A sua tabanca, Contabane, foi riscada do mapa pelo PAIGC, em 22 de junho de  1968. (**)

Veio a Portugal várias vezes. Manteve sempre fortes laços afetivos aos "tugas" (em especial ao José Teixeira, ao Paulo Santiago, Mário Miguéis da Silva). Por todas as razões, e sendo um dos valorosos camaradas da Guiné, passa a ser inumado, simbolicamente, sob o poilão da Tabanca Grande, no lugar nº 908. Tem várias referências no nosso blogue.

As fotos  que publicamos são elequoentes: tanto o Zé Teixeira como o Paulo Santiago sempre tiveram um especial carinho por este nosso camarada e sua família.

São dois "tugas" com uma enorme sensibilidade sociocultural, e capacidade de empatia,  que honram a Tabanca Grande:  um e outro conheceram a senhora Fatumatá, ainda em vida, o Paulo Santiago (ex-alf mil do Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72, que voltou à Guiné em 2005, 2008 e 2010), e o José Teixeira (ex-1.º cabo aux enf, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70), que foi à Guiné-Bissau ainda mais vezes (pelo menos, 2005, 2007, 2008, 2013, 2015, se não erro)


Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Saltinho > Sinchã Sambel >  2005 > A mulher do régulo local, a que está a ordenhar a vaca, casada com o régulo de Sinchã Sambel,  Suleimane Baldé, antigo 1º cabo do Pel Caç Nat 53, filho do antigo régulo de Contabane, Sambel Baldé. 

Depois da evacuação de Contabane, em a população dispersou-se por Mampatá e Aldeia Formosa. Mais tarde,foi reunida numa nova tabanca, junto ao Saltinho, Sinchã Sambel, em homenagem ao régulo, que foi sempre leal aos portugueses (era um firme alidado de Spínola).

Foto (e legenda): ©  José Teixeira (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Contabane > Sinchã Sambel > 3 março de 2008 > "Eu, o Pedro Lauret com o régulo Suleimane Baldé, régulo de Contabane, e outros habitantes da tabanca"

Fotos (e legendas): © Paulo Santiago (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné-Bissau > Região de Bafatá >  Sinchã Sambel > 2005 > "Fatumatá, esposa do régulo Sambel de Contabane.T
irei-lhe esta foto  em 2005 quando ela tinha 96 anos, segundo me disse a Meta Baldé (Naná), esposa do Suleimane Baldé, o filho e atual régulo.   À data estava perfeitamente lúcida. A imagem que me ficou dela foi o seu abraço prolongado enquanto me dizia com emoção 'Branco e na volta, Branco e na volta'.  Quando faleceu em 2010,  tinha efetivamente 100 anos. 


Foto (e legenda): ©  José Teixeira (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís GRaça & Camaradas da Guiné]


Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Sinchã Sambel > 2005 > Fota da dona Fatumatá, viúva do régulo de Contabane, Sambel Baldé, aliado de Spínola... Era já viúva, quando morreu, em 2010 ("com 114 luas, dizem uns, ou 100 anos, dizem outros".  


Foto (e legenda): ©  Paulo Santiago  (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Sinchã Sambel > 2013 >   Zé Teixeira, Naná, Maria Armanda e Suleimane Baldé



Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Sinchã Sambel > 2013 >  
A famíla Baldé e a família Teixeira  



Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Sinchã Sambel > 2015 >  O "Sulimane", como lhe chamava o Zé Teixeira. Dois velhos amigos e camaradas.



Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Sinchã Sambel > 2015 >  O " Sulimane" com o seu filho Alfa e o Zé Teixeira, vendo-se dntro da morança o Eduardo Moutinho Santos.

Fotos (e legenda): ©  José Teixeira (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:


Recorde-se o contexto (LG):

Face à pressão IN sobre a região do Forreá, a CCAÇ 2382 (que chegara ao CTIG em 6mai68, e estava a fazer a IAO em Bula), é colocada em 7jun68, à pressa, no Sector S2 (Aldeia Formosa), com dois pelotões em Contabane, no Forreá. Veio render forças da 5ª CCmds.

Em 11jun68, instala-se o o comando e os outros dois pelotões em Mampatá; no entanto, em 18jun68, a sede da subunidade passou para Contabane, ficando apenas um pelotão destacado em Mampatá.

Na noite de 22jun68, Contabane sofre um ataque de 3 horas e fica praticamente reduzida cinzas.

O régulo era o Sambel, e a "mulher grande" do régulo, uma grande senhora, a Fatumatá, pais do Suleimane Baldé (1935-2025).

Em 1jul68, Contabane, é evacuada, a CCAÇ 2382 volta de novo a instalar-se em Mampatá, agora com dois pelotões destacados em Buba e Patê Embalá. Será construído um reordenamento, no Saltinho, Sinchã Sambel, para alojar as famílias da antiga Contabane.